Texto: O ultimo adeus.

22:34


Chovia muito. Parece que o tempo sabia refletir bem o que eu sentia. Encostado na janela via a água indo embora assim como as lágrimas insistiam em fugir de meus olhos há exatos dois dias. Nunca gostei de chorar, me faz sentir fraco. Mas sem ela aqui ao meu lado, era impossível ser forte.

Em meio à tristeza que aos poucos me corrompia, encarei a chuva. Uma tempestade de lembranças veio em forma de devaneios. Maldita hora!

A cena se voltou em minha mente: estávamos na estrada. Eu dirigia e ela ia ao meu lado, como sempre. Costumávamos viajar... Tínhamos fama de casal aventureiro.  Cantávamos “Brendan’s death song”, sua musica preferida de sua banda favorita – esta musica nesse momento. Irônico.  Ela era linda e eu amava admira-la. Encarei-a em determinado instante. Cantava e sorria ao mesmo tempo. Perdi-me naquele sorriso como um menininho apaixonado.

_ Por quê? Por quê? – as únicas palavras que consegui murmurar. Talvez com ódio, talvez com culpa.

Lembro-me apenas de uma caminhonete em minha frente. Quando o cara me avistou, viu que não deveria ter passado pela contramão e num ato de reflexo, se jogou ao acostamento para seu lado esquerdo. Nenhum dos dois carros estava em velocidade extremamente alta, mas foi impossível evitar a colisão com o lado direito do meu carro, onde Nanda estava.

Desmaiei.

Após um tempo desacordado, despertei em meu pior pesadelo. O lado direito do carro estava parcialmente destruído, mas foi o suficiente para arrancar um pedaço de mim: Nanda bateu a cabeça com o choque dos carros e sangrava muito. Estava imóvel e sussurrava baixinho algo semelhante á uma despedida. Tentei me libertar do cinto de segurança, mas ele havia travado e não pude fazer nada por ela. Não pude salvar a razão da minha vida.  Pouco antes de me deixar pude entender suas palavras quando ela disse: “não foi culpa sua, eu te amo. Pra sempre!”. Comecei a chorar desesperadamente. O socorro chegou instante depois.

Quando percebi, estava de volta à minha casa, encarando a chuva pela janela. Chorando. Suas ultimas palavras não saiam de minha cabeça. Assombravam-me feito o pior de todos os fantasmas. E isso me doía cada vez mais.

Peguei o telefone e disquei seu numero. Automaticamente, como sempre foi. A esperança de que tudo fosse mentira e ela atendesse ainda existia, quando, por um momento, ouvi sua voz:

_Alô? – uma risada se estendeu na linha – Oi, é a Nanda, Não posso atender agora, mas deixe seu recado que retornarei assim que puder. Um beijão!

_Ei meu amor, é o Carlos. Só queria ouvir sua voz mais uma vez, dizer que te amo e dar um ultimo adeus.

Ouvi o barulho do celular caindo no chão. Só então percebi que não tinha mais forças para nada. Precisava fugir dessa realidade que não cabia mais a mim. Saí imediatamente do apartamento. Subi as escadas e cheguei ao topo do prédio. Caminhei, vagarosamente, até a beira e lá de cima, vi tudo bem pequeno e ainda sim, me senti muito menor que tudo que pudesse existir. Um algo quase insuficiente. E não era mais capaz de suportar isso. A chuva me consumia. Se pudesse, havia me levado com ela. Sentia os pingos cada vez mais fortes, até que de tão forte, começaram a ficar incômodos. Mas era uma dor suportável. Muito mais suportável do que a que estava me matando aos poucos.

_Nanda, meu amor. Estou chegando. Eu te amo... Pra sempre! Desculpa por isso.

Pulei. Estava cada vez mais próximo do chão, em queda livre. Fechei os olhos, senti como se estivesse voando. Livre. Como precisava me sentir.



PS: Gente, existe uma série de contos com esses mesmos personagens - por isso a falta de características deles - e este é o ultimo, no caso. Em breve postarei mais sobre eles

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